CRÔNICA: O MENINO SEM BOLA

O Escritor e professor Alex de França Aleluia escreveu uma crônica sobre a COPA DO MUNDO. Este será publicado em uma revista na Argentina.

 

Segue:

 

O MENINO SEM BOLA

bola

– João! João! – Gritava Maria na calçada, chamando o seu filho que jogava bola na rua com seus amigos. Rua esta sem asfalto, com buracos e erosões, mas a alegria se renovava quando João e seus amigos viam uma bola rolar neste espaço tão precário. – Vamos João. Eu vou te pegar! – Continuava a gritar para João. Ele com a bola nos pés fazia tremer seus adversários e sorrir seus amigos. Porém João, ouvindo aquela expressão de uma maneira tão impactante, parou a bola, deixou de sorrir e com suas sandálias sujas e velhas, que faziam um dos gols, foi até o encontro de sua mãe, sem sorriso e sem emoção.

– Menino, você não vê a hora? Já está ficando de noite e precisamos ir para casa, pois já já começa as desgraças.

– Que desgraça, mãe?

– Morte filho! Me dá a mão. Esqueceu que moramos na favela?

– Mas mãe, aqui no Rio, tudo é favela. Somente nas praias não são favelas, mas daqui dá para ver.

– Sim, querido. Como você ainda é pequeno, não está se envolvendo, mas não quero você envolvido com pessoas más.

– E quem são as pessoas más, mamãe?

– Aqueles caras ali – Maria apontou para uma roda de homens que estavam na esquina e com bonés. Quando alguém deles te chamar, não vá. – Maria parou em frente do menino e agachou – Prometa para a mamãe.

– Sim mãe. Prometo. – Levando sua mãozinha até a boca.

– A mãe só tem você! Não vou suportar se algo te aconteça.

– Tudo bem, mãe. Vou crescer para ser um grande jogador e ajudar a senhora. Vamos sair dessas pessoas más.

– Sim filho.

Os dois continuavam a caminhar. Maria poderia ter todos os defeitos: agressiva, chata, barulhenta, folgada, mas ela tinha uma qualidade inabalável, o de ser mãe.

O menino continuava sua rotina de escola, bola na rua e ir para casa com sua mãe. A copa do mundo se aproximava. O lugar onde viviam aumentava gradativamente a violência. As Unidades Pacificadoras nas favelas não seguravam mais a tranquilidade que outrora traziam. Tiros, roubos e assassinatos eram frequentes e com mais intensidade. Maria até tentou tirar João do jogo de futebol de rua, mas um dia sem jogar, João perdia o olhar de esperança e brilho e vendo a tristeza impregnada no coração do menininho, ela voltou atrás e o deixou jogar.

Um dia, um belo dia de início, um dia antes do início da Copa, motoristas de ônibus, maquinistas de transportes em trilhos, paralisaram em busca de melhores condições de trabalho. A polícia teve de se planejar para estar em todos os lugares, mas não tinha estrutura para isso.

João, muito fã de Neymar, jogava bola, como sempre na rua, aguardando sua mãe o chamar com aquela voz impactante. Foi escurecendo e a voz não culminava em sua mente. Seus amigos começaram a deixar o campo, que era a rua, e ele ficou sozinho, sentado na calçada a espera de sua mãe.

João, que tinha em torno dos 9 anos, se desesperava à medida que a lua crescia. E nada de sua mãe. Então, por alguns minutos, pensou bobeiras e resolveu ir para a casa, sozinho e como nunca fez. Ele parecia um bicho arisco. Com medo e receio das pessoas más se aproximar. No caminho de casa, viu uma aglomeração na rua. Percebeu que muitas pessoas estavam em volta de algo. Resolveu conferir, mas ficou com receio, pois identificou uma das pessoas más. Foi se incorporando no bloco de pessoas. Empurrando um, se virando do outro e identifica um corpo estirado no chão. Ficou pasmado e assustado, pois sua mãe cuidava para que nada disso fosse parar em sua cabeça.

Chegou mais perto e quando percebeu, viu sua mãe. Seus olhos encheram-se de lágrimas, mas não conseguiam expulsá-las. Sua mente ainda dizia que aquilo não era real, mas o não chamar de sua mãe ficava em sua memória. Chegou mais perto e confirmou. Era sua mãe.

João correu para o corpo jogado e com a cabeça encostou em seu peito. Com a voz trêmula dizia “vamos mãe para a casa”. Todos ali se entristecia com a cena. O choro engasgado se libertou de uma forma que atraiu mais gente. E o menino, que jogava como ninguém, que tinha as bolas nos pés, não mais tinha. A bola, a esperança e a alegria da Copa se foram e se apagaram com a sua mãe.

Maria entrou para as estatísticas, João para o tráfico, e a favela continuou sendo favela. O Brasil, com copa ou sem copa, continuou se desfazendo de pessoas comuns com sonhos, ideais e muita alegria, como o povo brasileiro é.

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