PARA QUE SERVE A ESCOLA? – PARTE 2 – A ESCOLA SEM PARTIDO FAZ PARTE DA INDAGAÇÃO?

PARA QUE SERVE A ESCOLA?

PARTE 3 – A ESCOLA SEM PARTIDO FAZ PARTE DA INDAGAÇÃO?

 

Quero, antes de iniciar esta conversa, agradecer aos professores e todos os profissionais da Educação que de alguma forma trabalha meus artigos em suas reuniões pedagógicas. Tenho recebido diversos e-mails e necessito agradecer.

Este artigo é o último sobre este assunto. Na primeira parte, falamos sobre a figura do professor e na segunda sobre o aluno, este me centrarei na escola. Já fizemos toda uma abordagem sobre o contexto histórico escolar, mas em uma das palestras feitas por mim, um professor pediu que opinasse sobre o projeto Escola Sem Partido. Ele foi adiante em sua formulação: será que os autores do projeto percebem, só agora, que a escola é a única ferramenta capaz de controlar uma sociedade? Será que os grupos que não estão no poder, estão usando o projeto para neutralizar o que faziam quando estavam? O que se entende sobre este projeto?

Perguntas provocadoras e, ao mesmo tempo, delirantes. Sorri como de costume e tentei me posicionar como neutro em uma situação que não tem como ser. Difícil isso!

Comecei relatando alguns pontos de nossa história. A Educação era uma doutrinação religiosa em nosso país. Quando os portugueses entenderam que aqui se tinha muitas riquezas, mas precisariam de uma ajuda para explorar, trouxeram os jesuítas para catequizá-los. O objetivo não era apresentar uma nova fé, mas de escravizá-los. E assim foi feito. Os índios que não aceitaram, morreram em combate. Com o tempo, os jesuítas perceberam que não era apenas para multiplicar a fé, mas de fazer uma manipulação cruel e sangrenta aos dominados.  Muitos se rebelaram, inclusive o mais famoso e considerado honesto, Padre Antônio Vieira, que começou a proteger os índios e os negros da escravidão. Chegou até ser expulso de seu ofício, mas continuou ali, lutando pelos mais fracos.

Caminhando ainda pela história, quando Marquês de Pombal assumiu o ministério em Portugal já tinha entendido que os índios se portavam como vassalos aos padres e isso era ilegal, pois o único senhor era o Rei. Tratou de expulsá-los, alegando ilegitimidade de domínio. A escola era controlada pelos Jesuítas e após o fato, não mais.

As indagações feitas, para mim, ficaram martelando durante algumas semanas e foi se moldando aos poucos para escrever este artigo. Às vezes, realmente, chego a pensar que as pessoas por trás deste projeto entendem claramente que a dominação se começa pela escola, além de ter a plena clareza de que tudo para nela. Então, como o professor deve agir com este projeto? A escola é para doutrinação ou não?

A escola foi usada durante muito tempo para isso, mas, aos poucos, foi acabando. Se buscarmos a estratégia tradicional, chegaremos ao consenso de que o professor chegava em sala e dava a sua versão de fatos sobre o próprio fato, buscando mostrar que seu posicionamento era o mais correto. O aluno era só um recebedor de conteúdo e tinha de devolver tudo na mesma medida na avaliação. Hoje, em pleno século XXI não é e não pode ser mais assim. Antes, o acesso as informações era obtido na escola, hoje, pode ser feito em qualquer lugar.

O aluno já vem com sua formação pronta no ensino Médio. E durante o fundamental, foi sendo moldada por uma visão totalmente familiar e muitas vezes preconceituosa em determinados assuntos e a escola esteve ali para uma intervenção direta e efetiva. Talvez, um dos que defende o projeto vai pegar este trecho do meu artigo para dizer que fazemos a doutrinação, mas está totalmente equivocado. A escola apresenta todos os lados. O plural do assunto é assegurado. O conceito de que toda história tem dois lados é passado. E se não é, o aluno questiona, e é aí que começa o papel da escola. Fazer do aluno um crítico para mudanças sociais e saber o seu papel de cidadão. Todos assegurados na constituição.

Estes dias, propus aos meus alunos dos 9º anos um debate sobre AS COTAS SOCIAIS E RACIAIS. O debate fazia parte do currículo básico, pois estamos trabalhando a argumentação. Não quero saber se ele é contra ou a favor, mas como ele consegue argumentar assegurando uma visão. Quando falei sobre o tema, a sala saiu dos trilhos e os alunos já tinham uma visão específica do tema, mas prossegui dizendo que o assunto será debatido na semana seguinte e que todos os alunos precisam buscar visões de teóricos, estatísticas e exemplos que mostre a contrariedade ou a aceitabilidade do programa e que somente no dia saberiam quem ficará em qual grupo para a argumentação.

Durante os dias, era procurado por diversos alunos pedindo para eu colocá-los no grupo de contrariedade e outros de aceitabilidade. Debatiam ferozmente por suas visões já embutidas. Agora por quem? Foi pela escola? De jeito algum, pois não falamos sobre isso durante o ano letivo. Entendo e volto a falar que os defensores do projeto Escola Sem Partido pensam que o aluno vem sem ideologia para a escola. Provei aqui que não. Mas continuando à experiência. No dia do debate, pedi para que fizessem dois círculos na sala e colocassem duas carteiras à frente para os moderadores, que são escolhidos pelos próprios alunos. Eles assim fizeram. Ao terminar, vi que quem era de um lado ficou em uma determinada roda e quem era de outra, na seguinte. Então, comecei a sinalizar uma numeração aos alunos entre um e dois. E após, pedi para os números 1 irem a um lado e o 2 para o outro. Também fizeram. Em seguida, disse que o número 1 era contrário ao projeto e o 2 favorável. Uns não gostaram, pois ficaram em um grupo que não era de sua visão corriqueira, mas eu preciso mostrar os dois lados.

O Debate foi dividido em três momentos (Considerações iniciais, argumentação e réplica). Eles tinham um tempo para avaliar o que foi dito para rebater. Então iniciou o debate com algumas regras que tinham de seguir. Como a não interrupção, xingamentos, desrespeito aos direitos humanos. Além de mostrar o que seria válido, como pesquisa, apresentação do ponto de vista e o que usou para argumentar. Um grupo inicia com as considerações iniciais, para dar a provocação do tema, o outro vem em sequência com o argumento, e o primeiro volta para a réplica. Depois trocamos para uma nova rodada. Assim os dois grupos passariam por todos os momentos do debate. Eles tinham tempo para cada momento. Ali, queria passar que para debater é preciso ouvir. Queria mostrar também que o debate é enriquecedor, o conflito é permitido, o que não é, seria o confronto. Depois, troquei a visão do grupo, quem era favorável na primeira instância, ficou contra na segunda. Assim, os grupos passariam pelos dois lados da moeda.

Esta experiência foi a mais próxima que pude Alencar para mostrar minha visão perante o projeto. A escola sem partido é uma falta de entendimento profundo sobre o que é educação. Estão levando a escola para o lado jurídico, não para o lado cultural, que é o lado merecedor da questão. Se o projeto vigorar, o que terá de pais confrontando a escola não estará escrito. O professor será refém de suas próprias palavras e isso não é censura? Imagine um professor falando sobre a homossexualidade durante a Grécia antiga e o pai entender que não quer que isso seja falado, pois pode influenciar seu filho. Ou um professor de Educação Física que ensina as regras do futebol e os pais não querem que sua filha pratique o esporte, porque é de homem? Parece fora do esquadro estas indagações, mas o nosso país é grande e tem de tudo. Tem até gente pensando que o professor tem o poder de manipular.

Temos de entender que todos os assuntos jorrados na sociedade param na escola, pois o jovem se recicla muito rápido e precisamos estar preparados para falar de tudo e com vários pontos de visões.

Para finalizar, algumas vezes delirante de minha mente, entendo que os motivadores do projeto estão certos, pois se a escola agisse da maneira de levantar o debate e mostrar que para debater é preciso ouvir, talvez não tivéssemos um projeto tão pernóstico e aparvalhado sendo discutido no país.

 

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